ISSN (suporte electrónico) 1646-3862
Revista Lusófona de Ciência Política e Relações Internacionais

 

 

ANO I - Nº 1 / 2

2005

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Europa

Problemas e Desafios

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Recensões

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Recensões

Neves, Fernando dos Santos - Para uma Crítica da Razão Lusófona : 11 Teses sobre a CPLP
e a Lusofonia
( Lisboa: Edições Universitárias Lusófonas, 2ª ed., 2002 ).

Vem sempre a propósito lembrar textos inteligentes, sobretudo se, como este, contêm doutrina directamente relevante para a matéria de que tratam e se, além disso, podem representar a posição de uma Universidade, ou uma posição na Universidade, coincidente com a da sua mais alta autoridade académica, o Reitor.
O Professor Fernando dos Santos Neves tem uma lúcida paixão pelos temas da Lusofonia sobre que tem produzido numerosos textos, ditados ou não pela conjuntura, mas sempre com uma mais-valia
de pensamento irrequieto, irreverente e inspirador. Nestas circuns-tâncias e vista a relevância política
e cultural do tema, não é atrevimento sugerir que a Universidade (mesmo contra o Autor!) tome a iniciativa
de os seleccionar e reunir em publicação autónoma, que constituiria, garante-se, um bosco deleitoso para
o pensamento e humores de muitos cidadãos. Para não falar das aves, as de Aristófanes e outras!
Ex digito…
Entretanto, fica um adiantamento, que consiste no seguinte: nas suas 11 Teses sobre a CPLP
e a Lusofonia
, o Professor Santos Neves deu-se à bizarria de insidiosamente invocar Feuerbach, por via do título, mas sem seguir o K. quer na forma quer na substância (aqui, felizmente); ou seja, alinhou onze capítulos de estimulantes reflexões, mas sem as reduzir às formas lapidares com que “o grande pensador alemão” (como em certa época se escrevia) ornou o nosso Ludwig. A título de incitação (ao leitor para que leia o livro, e ao A. para que as corrija, sendo caso disso) alinho sem mais delongas as inserções ausentes – da minha lavra e seguindo a ordem dos capítulos da exposição original. Se o Autor delas discordar, paciência. Assistir-lhe-á sempre um direito – ou dois: queixar-se – e responder!

11 Teses Sobre a CPLP e a Lusofonia à Revelia do Autor:
1ª) A Lusofonia é um ecumenismo.
2ª) A Lusofonia é um ecumenismo assimétrico.
3ª) A Lusofonia é superação de ícones e práticas desviantes.
4ª) A Lusofonia supera o regional e o nacional: é indivisível e global, sem ser mundial.
5ª) A Lusofonia não é só forma e ideal: é substância ecuménica de realização humana.
6ª) A Lusofonia é a liberdade no uno: uma cidadania sem fronteiras interiores.
7ª) A Lusofonia é sobretudo uma afirmação de língua, mas não sobretudo uma questão linguística.
8ª) A Lusofonia não aspira a língua franca mundial, mas a língua de presença e de concertações estratégicas globais.
9ª) A Lusofonia, como o futuro, é educação: tudo o mais virá por acréscimo.
10ª) A Lusofonia não é ideologia vaga, mas projecto e objectivo definidos: realização de um espaço próprio, concertado, democrático, desenvolvido, dialogante.
11ª) Lusofonia: até aqui, tem-se falado na palavra; o que importa, já, é transformá-la em acto reflectido, realizando o facto.
Dixi .

João Bettencourt da Câmara

JACINTO, José Luís de Moura - A Nudez do Político ( Lisboa: Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, Junho de 2004 ).

Eis um livro refrescante pela clareza das ideias e pelo gosto de um pensamento que civilizadamente enjeita
a especialização, aquela especialização rústica e agreste que confunde os méritos do saber qualificado com o nanismo dos que proclamam que “cada vez sabemos mais de menos” (p. 43) – e que nisso se comprazem, provavelmente por cada vez saberem menos de quase nada… Nesta universidade europeia
e m transe de mutação e que parece ter gosto em a si mesma se negar, transformando os seus docentes em burocráticos servidores das estatísticas da educação e da pedonal “ponte com o mercado”, é sempre consolador achar-se uma voz recordando (pela prática) a tradição: a tradição que sempre verdadeiramente serviu a Universidade (e o mercado), a tradição de pensar, de procurar, de acertar e errar, de inovar,
às claras, ou seja, sem os disfarces prudentes e postiços de inanes redundâncias estatísticas
ou insondáveis opacidades discursivas.
Nos casos cada vez mais raros de autores pensantes, como este, mesmo o erro é um serviço, porque alimenta o movimento do eixo essencial: a aventura da ideia, com todos os riscos que essa aventura traz.
O direito ao erro é um privilégio inalienável de quem pensa, sobretudo se quem pensa é um jovem
e inteligente académico que não precisa de o invocar a cada passo! É certo que é traído, em particular
na bibliografia, por uma deficiente revisão de provas. É certo, também, que algumas das suas conclusões
e asserções sugerem curiosidades e reparos: por exemplo, Durkheim nunca defendeu
a pseudo-especialização que acima se refere (p. 43); Kojève foi certamente um dos mais influentes intérpretes de Hegel, mas dificilmente um dos “maiores” (p. 18), como, para não ir mais longe, silenciosamente o demonstra a obra de Jean Hyppolite; não parece convincente comparar-se o conceito
de “trabalho” no Marx da Ideologia Alemã (1845) com o conceito de “trabalho” no Marx d' O Capital (1867-), nem ver no primeiro uma contradição entre a regulação social da produção e a realização plena dos indivíduos, a seu “bel-prazer”, dado que a tese central de Marx é, nessa idílica passagem, a da fusão
ou con-fusão entre indivíduo e sociedade, que tornaria possível a esta administrar espontaneamente
a realização plena de todos os (indivíduos) seus constituintes: – a utopia pode ser absurda mas
o argumento não (pp. 19-21); parece igualmente questionável dizer-se que o Hegel da Dialéctica do Senhor e do Escravo “demonstrou” que este último “adquire um poder de disposição sobre a natureza e que assim se emancipa” (p. 18), dado que a dialéctica hegeliana não desfecha numa síntese, mas numa
“negação-da-negação” e que por isso mesmo não pode ser demonstrativa ; Castoriadis ao não entender como é que “um método reaccionário sob o capitalismo se transforme em método progressista sob
a ditadura do proletariado” (p. 27) mostra que, ao contrário de Lenine, não entendeu o sistema taylorista:
a intenção de Lenine era aplicar as técnicas do taylorismo ao modelo socialista, mas separadas dos seus princípios (como diria Taylor) e dos seus objectivos: por exemplo, a redução do dia de trabalho representava para Taylor uma oportunidade para o trabalhador dispor de mais tempo livre; para Lenine, oferecia a vantagem de aquele poder participar mais nas actividades do Partido (igualmente libertadoras, já que o Partido, pensava ele, é em certo sentido o trabalhador!…); afigura-se de duvidoso serviço, no contexto, a citação do Livro I dos Discorsi de Maquiavel usada na p. 160, por ser um decalque de Platão, via Políbio, que o bom Niccolò resumiu, copiou e parafraseou em todo este lugar. E mais.
Detalhes! O que importa é que José Luís Jacinto produziu um livro que, como ficou sugerido, dá que pensar, no melhor sentido da expressão e vem escrito numa prosa clara e precisa que o A. enriquece de referências literárias e outras, o que só pode estimular o gosto e a imaginação dos leitores e dos estudantes aos quais, muito em particular, se dirige. Por outro lado, é com saudável apetite que visita diversas áreas
do saber, da teoria social à filosofia política (dominante na exposição), da sociologia à politologia, da filosofia tout court à literatura, confirmando assim a sua construtiva aversão aos funis disciplinares, mas sem perder de vista o especial objecto e a finalidade pedagógica do estudo, que prolonga aspectos da sua dissertação de doutoramento ( O Trabalho e as Relações Internacionais – A Função do Direito Internacional
do Trabalh o
, Lisboa: ISCSP, 2002) e procura servir a cadeira de Sindicalismo e Acção Política, de que
é regente.
Palavras suas, colhidas da introdução: “na nudez do político encontramos os problemas da interacção humana, da comunidade, do poder, da democracia, da acção e da misantropia.” Eis enumeradas
as principais rubricas de um livro que promete sequela e que com prazer se recomenda.

João Bettencourt da Câmara

SÁ, Luís - Intervenções Parlamentares (Lisboa: Divisão de Edições da Assembleia da República, 2004 ).

Recentemente dado à estampa, o IV Volume da Colecção Intervenções Parlamentares, editada pela Assembleia da República é dedicado a Luís Sá, enquanto parlamentar. Depois das edições que reúnem intervenções parlamentares de Francisco de Sá Carneiro e de Adelino Amaro da Costa e de um volume evocativo de António Lopes Cardoso, esta obra reúne uma selecção de intervenções parlamentares
e de artigos publicados por Luís Sá ao tempo em que exerceu as funções de Deputado à Assembleia
da República, entre 1991 e 1999, ressalvada a interrupção ditada pela sua eleição para o Parlamento Europeu em 1994.
A organização temática do livro desenvolve-se em torno de grandes capítulos, dedicados às áreas
de intervenção política e parlamentar em que Luís Sá mais se distinguiu. Assim, para além de um capítulo inicial de intervenções de carácter mais geral, a obra desdobra-se nos capítulos relativos à Justiça, ao Poder Local e Regionalização, às Questões Sociais, à Revisão Constitucional de 1997, ao Sistema Eleitoral e, por fim, à União Europeia. Em todas estas áreas Luís Sá se notabilizou enquanto dirigente político
e enquanto parlamentar, para além da sua conhecida vertente de académico nas áreas da Ciência Política
e do Direito Administrativo.
Em cada capítulo, às intervenções parlamentares, acrescenta-se uma selecção de artigos sobre os temas versados, ao tempo publicados em jornais e revistas que contaram com a colaboração do autor, concretamente, as revistas O Militante e Vida Mundial e o jornal Público.
Este volume de intervenções parlamentares vem juntar-se a uma vasta obra científica que Luís Sá nos legou. Não se trata obviamente de uma obra académica. Mas o rigor e a qualidade que caracteri-zaram Luís Sá enquanto cientista e professor estão muito presentes na intervenção política retratada ao longo das quase 600 páginas que compõem esta publicação.

António Filipe

 

 


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